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Uma oficina de teatro, muitas lições de vida

Uma oficina de teatro, muitas lições de vida

Uma oficina de teatro, muitas lições de vida

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No ano de 2015, em março, mais precisamente, eu, enquanto coordenadora de Marketing da empresa de gestão da bilhetagem eletrônica, a Aracajucard, contratei um grupo teatral chamado Companhia das Artes Tetê Nahas para realização de um trabalho educativo nos terminais de integração de Aracaju. Briefing feito, ações definidas, chegou o dia do start da ação.

Era 6h30 de uma segunda-feira (todos os colaboradores do sistema de integração acionados/ material de campanha no interior dos ônibus a postos - pelo menos naquele dia, algo em torno de 300 mil pessoas seriam impactadas) e eu estava lá com outra parceria de trabalho, a Alessandra Franco, editoria aqui do portal, à época assessora de Comunicação da Aracajucard, para acompanharmos as atividades. Tudo transcorreu conforme o planejado. Ao final, a Tetê Nahas (atriz e diretora da companhia) comentou: "iniciarei uma oficina de teatro na semana que vem, apareça por lá"... Sorri e disse: "irei".

Não colhi muitas informações sobre a ocasião. Lembrava apenas dia, hora e local. Cheguei pontualmente ao teatro Tobias Barreto e me deparei com pessoas vestidas com roupas confortáveis, fazendo alongamentos. Eu estava com a roupa do trabalho, estilo social. Mas ok. Fui logo, tirando meu salto alto e o colar de pérolas que adornava o meu pescoço, coloquei a camisa de botão para fora (buscando ficar um pouco mais confortável). Dei um oi tímido a todos. Tetê apenas me olhou e sorriu.

Quando fizemos a roda, ela pediu que nos apresentássemos e falássemos o que nos trazia ali. Fui bem sincera, como de costume. Falei que soube da oficina na semana que os conheci e decidi ir à aula inaugural. Aproveitei e brinquei que a minha roupa dizia muito bem a situação, não sabia mais nada a respeito do que me aguardava, mas, simplesmente, estava ali.

De março a dezembro de 2015, passamos por um processo de autoconhecimento. Como a nossa mestre dizia, nesse tipo de oficina precisamos fazer o preparo do EU. Confesso que dá medo, nos traz muito choro, enfrentamento, mas também muito sorriso, novas amizades e um resgate das memórias mais incríveis que, com o passar do tempo, a gente "esquece". A gente cresce... frown 

As aulas ocorriam às terças e quintas. Foram momentos fortes, de muita concentração, resgate da infância, busca da naturalidade, da essência da dramaturgia, da história do teatro, da melhor expressão corporal e facial, do olho no olho, trabalho da voz, das técnicas de improviso e dinâmicas diversas, como, por exemplo, ficar no centro de uma roda e, a cada turbilhão de perguntas, responder a todas; contar algo sem falar (por incrível que pareça, conseguíamos contar cada história inacreditável), correr na sala sem tocar no colega etc. 

Nunca formávamos duplas e quando Tetê percebia alguém muito colado em alguém, batia a velha palma para mudarmos de pessoas ou ação - ela sempre falava "você quer guiar ou ser guiado?", "ninguém é sua muleta". Havia momentos nos quais uma pessoa era escolhida para começar falando uma frase e, sem explicação alguma, simplesmente tínhamos que prestar a atenção. Incrivelmente criávamos tantas histórias. Foi aí que comecei a entrar no belo significado da palavra percepção.

percepção - substantivo feminino

1. faculdade de apreender por meio dos sentidos ou da mente."p. da temperatura" 
2.  frm. consciência (de coisa ou pessoa), impressão ou intuição, esp. moral."ensinar a p. do bem e do mal" 

 

Um dos nossos lemas era ACREDITE! Acredite em você,

acredite no personagem, ENTRE, se jogue.

Ao final das aulas, fazíamos uma roda e falávamos sobre os sentimentos e aprendizado do dia. Seguindo a uma recomendação da Tetê Nahas, fiz o meu diário de bordo contando todo o processo das aulas, durante os nove meses do curso. 

Em novembro, recebemos nosso primeiro roteiro e, consequentemente, o nosso primeiro papel. Cada personagem que "pegamos" trazia justamente os nossos pontos fracos, percebidos pela nossa mestre durante todo o processo. A peça escolhida foi o musical NonNatal, que contava a história do avarento Nonato e a sua redenção por meio da visita dos "espíritos de natal". A direção e adaptação foi de Tetê Nahas, do livro a Christmas Carol, do autor Charles Dickens.

Alguns aprendizados da experiência

1. Foco //meu objetivo = entender o texto // como o espetáculo era musical e eu fui uma das narradoras da história, passei a ler o roteiro pelo menos quatro vezes por dia, dedicava algumas horas a isso, e as músicas sempre estavam na playlist para que eu aprendesse a cantar. O papel da narradora era, justamente, o de acompanhar, do início ao fim o musical, o que exigiu de mim muita disciplina.

2. Trajetória // entendimento do todo // com o passar dos dias e com muitas leituras, aprendemos a criar o trajeto da história com palavras-chave, para que entendêssemos melhor as etapas. Isso ajudou - e muito - o entendimento, a entrada de cada personagem, de cada música.

3. Está com medo? // vai mesmo assim! Tivemos inúmeros ensaios, eram 5h dedicadas ao musical. Aconteceu também um ensaio aberto, em praça pública. Estávamos passando o texto e, de repente, a Tetê disparou, "vamos fazer valendo, chamarei todas as pessoas que estão na praça". E não é que as pessoas aplaudiram, cantaram e choraram? A Tetê dizia, "somente vocês sabem o texto, deu branco, brinque, improvise, se jogue". Assim fizemos.

Lembra lá em cima quando comentei que não deveríamos formar dupla? Em um dos últimos ensaios, eu vi que a minha dupla de narração foi embora, ninguém precisou falar NADA, eu na hora entendi (uma das minhas falhas era completar o texto dela, ou seja, estava me "encostando" nela). 

"Com todo o processo, eu entendia sem palavras, nos comunicávamos com olhar...(meu papel era de iniciar o espetáculo, a primeira pessoa a narrar, dar o ar da graça no palco)... No dia que a minha "parça" foi liberada: travei, passei mal, fui provocada até desabar, até tentar gritar, até ultrapassar as minhas cobranças internas/externas."  Fabiana Droppa

4. Improviso - deu branco na hora do texto? Fale algo repentino dentro do contexto, mas não demonstre ao público que as palavras fugiram, brinque. Um exemplo que ocorreu na estreia foi que uma das características que eu tinha que comentar sobre o velho avarento, me fugiu à mente. Aí eu brinquei com a narradora (nós éramos a consciência do Nonato), dizendo: "está vendo, ele é tão frio, tão fechado, tão, tão... que eu estou ficando igualzinha a ele, tá congelando até os meus pensamentos e gargalhei". Ficou algo tão natural, tão dentro do contexto que só quem sabe do roteiro percebeu o meu improviso. Como é um conjunto de ações / reações / experimentos e entrega, tudo acaba fluindo.

5. Passe uma mensagem - tudo tem um início, meio e fim. Como participamos de uma oficina de teatro, nós não tínhamos que entregar um texto ctrl c + ctrl v. Nós tínhamos que interpretar, contar uma história, conversar, arrancar sorriso, cantar e dançar. Fazer com que o nosso público refletisse...

"Quando dei o meu primeiro passo, iniciei o meu texto e cantei, eu não era mais a Fabiana Droppa, eu era a consciência do Nonato. Assim foi por 1h40, os momentos mais intensos dos últimos anos." 

Ao final do espetáculo, cantamos a nossa música, de mãos dadas. A canção dizia assim: "desde que o mundo é mundo, o homem se alimenta de sonhos.... Não estamos sós, quando cada um de nós entendi que dividir é somar". Nós estávamos plenos, pois cada um sabia o seu próprio enfrentamento. Consequentemente, redescobrimos a palavra da ordem: autoestima.

Depois dessa apresentação, que aconteceu no dia 19 de dezembro de 2015, eu conseguia me olhar, conseguia entender o que era de fato tentar algo novo, arriscar e gostar do resultado. Sabia que tudo o que vinha aprendendo durante todos esse meses (a listinha de 5 itens acima) eu já estava aplicando em minha rotina pessoal e profissional.

No seu espetáculo, você quer comandar ou ser comandado? Você aplaude o roteiro que você vem escrevendo?  

Alguns comentários extras:
"Nossa! Filha, nunca tinha te visto assim!!" - José Almeida (meu pai) // Urrum pai, nem eu ahah - Droppa.

"Droppa, toda palhaça, se soltou hein?!"- Estevão, ator // Juro, que tem coisas que não lembro o que fiz e falei. - Droppa

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