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Dias off, vivências reais

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Ei, você do outro lado da telinha, aposto que é muito parecido comigo: está sempre multiconectado, responde a inúmeras pessoas por whatsapp e telegram, faz reuniões via skype ou hangout, verifica as interações de um post promovido, responde e-mails, estuda, muda abas, faz ligações, anotações e repeti essas ações inúmeras vezes durante o dia…

Vocês já refletiram sobre a quantidade de coisas legais que fizeram quando ficaram distantes do dispositivo móvel? Falarei sobre isso nesse texto, compartilhando aqui a minha experiência de ter ficado cinco dias off-line, em conexão comigo mesma e com uma família linda.

Recentemente, antes do feriadão do Carnaval, soube, por meu marido, do convite para irmos à uma fazenda, em outro Estado, minha cara foi como a desse cachorrinho aí embaixo: "Eu ouvi fazenda?" Fiquei contando as horas, pois sabia que faria um detox precioso do meu mundo digital e viveria conexões humanas fantásticas.

Viajamos cedo (o marido e eu), pegamos a estrada e chegamos ao local por volta da hora do almoço. Antes de chegarmos, o sinal 3G já começava a não funcionar e eu começava a me preparar para os próximos dias distante de tanta conexão digital que vivencio diariamente.

A fazenda que, pelo menos duas vezes ao ano, somos convidados a ir, é um ambiente que emana amor, boas conversas, boa comida, risadas e união familiar. Há alguns detalhes que me chamam a atenção desde que fui lá pela primeira vez, a exemplo de uma cestinha em um móvel na sala de jantar, sobre a qual a maioria deixa os seus celulares, já que é algo que eles usam pouco ou quase nada lá. Muitas vezes, deixo o meu no chalé ou estou com ele para registrar momentos legais, tiro fotos, filmo o entardecer (sou apaixonada) ou faço ligações para os meus pais ou irmã e só.

Durante cinco dias, vivi situações que compartilharei com vocês no intuito de fazê-los viajar junto comigo nessa experiência, vamos lá?!

Dia 1 (sábado) - Percorremos alguns quilômetros até chegar ao nosso destino, que fica em Alagoas. Quando pegamos a estrada de terra e subimos por volta de 9 km, já vou ficando com os olhos cheio de brilho ao avistar aquela imensidão de montanhas, pássaros, gado, árvores com frutos  (desta vez, percebi que a seca deu uma castigada na paisagem. Muitos açudes e rios nem água tem mais frown).

Ao chegarmos, fomos recebidos calorosamente, levados até o chalé no qual passaríamos todos os dias e deixamos as nossas coisas. Conversamos, almoçamos e nos organizamos para ir até Maceió a fim de vermos o bebê da família que completara o seu primeiro mês de vida. Retornamos pela noite à fazenda, degustamos um bom jantar, papo na varanda e todos nos recolhemos cedo.

Dia 2 (domingo) - Acordei, tomei o café da manhã sozinha por alguns minutos, pois levantei mais tarde que os outros, mas logo tive a doce companhia da filha do nosso amigo. Ela está mocinha, gosta de fazer perguntas e de puxar assunto. Ficou ali comigo enquanto tomava o meu café. 

Nesse dia tive uma crise alérgica forte e fiz uma mistura infeliz de antialérgico e bebida alcoólica, resultado: sono exagerado. Dormi por horas. Nem lembro que foram até o meu quarto me convidando a participar do mela mela (uma tradição da família na qual todos se sujam de maisena). Uma das minhas amigas comentou que foi no quarto me chamar, mas eu disse que preferia ficar dormindo (não lembro de nada disso kkk), Mesmo assim, algum tempo depois, um grupo entrou no quarto. Me perguntaram se eu acordo mal humorada. Só tive tempo de responder, meio zonza que não até ser coberta com uma mistura de hidratante e maisena no rosto. Ainda colocam colar havaiano no meu pescoço e me arrastam para a área externa da casa.

Rimos muito com o mela mela. Todos contagiados com aquelas caras brancas, sujas e felizes. Cada um dançando à sua maneira o ritmo de frevo que tocava ao fundo.... Em outro local, as crianças brincavam com uma bexiga cheia de água de cor laranja. Cada fazia uma pergunta, quem não respondia, levava um banho de água. Claro que muitos prefiram errar só para se deliciar com aquela água que caía das bexigas coloridas. Eles corriam de um lado para o outro até cansarem.

O grupo se reuniu para a foto tradicional,mas era uma pegadinha, o Tio jogou água em todo mundo


Neste dia, fui dormir às 21h40 e acordei somente no dia seguinte às 9h30, resultado da mistura errônea de remédio com bebida, mas amei dormir por horas. Acordei na manhã seguinte zerada.

Dia 3 (segunda-feira) - Os meninos foram pedalar. Bem bacana ver três moços com sorriso de orelha a orelha imaginando as subidas e descidas que curtiriam nas próximas horas. Preferi ficar na fazenda com as mulheres e crianças. Todas nós ficamos na cozinha, cada uma ajudando à sua maneira. Uma das gostosuras a serem feitas foi uma torta de dois andares, com dois tipos de recheio (sugeridos pelas netinhas) e outra de banana (apreciada por todos).

Imaginem o cheiro do açúcar caramelizado, conversas paralelas, crianças empolgadas misturando os ingredientes e a mulherada degustando uma boa taça de vinho, enquanto as gostosuras eram preparadas. O timer tocou e nos organizamos para buscar os meninos que tinham saído de bicicleta. Foram alguns quilômetros nos quais pude conversar e conhecer melhor a minha amiga. Aproveitei para observar os arredores, percebi que todas as pessoas com as quais cruzamos na estrada, nos cumprimentaram com sorriso no rosto.

O local onde fomos encontrá-los é uma fazenda na qual fica um hospital veterinário. Um dos cavalos estava sendo tratado no local. Enquanto ficamos conversando, me oferecem uma carambola fresquinha, amarelinha tirada do pé bem em minha frente. Sorri e me deliciei, pois é uma fruta que gosto muito. Enquanto apreciava a fruta, olhei ao meu entorno e vi como o dia estava lindo, céu azul, poucas nuvens, algumas árvores com folhagem de cores fortes, algumas folhas caídas no chão... Tudo parecia tão harmonioso... Enquanto mastigava a fruta, observava todos se prepararem para retornar à fazenda. O marido retornou na caçamba do carro, sorridente, segurando a sua bicicleta e sorrindo sozinho, rio também ao ver a cena...

Meu lugar preferido na fazenda é um balanço que tem na área externa. Passo muitos minutos me balançando, pensando na vida, sentindo e ouvindo o som do vento mexendo as folhagens, aprecio as orquídeas próximas a mim, aquela imensidão toda. Muitas vezes deixo os meus pés descalços e me permito sentir a terra, o gramado... Me perco olhando as formigas para lá e para cá….e assim o tempo passa….e eu me vejo ali, simplesmente ali.

Dia 4 (terça-feira) – Acordei mais cedo e aceitei o convite para andar a cavalo pela redondeza. O cavalo escolhido para mim foi um já aposentado, com 20 anos, muito amado por todos e bem manso. Fiquei acariciando o seu pelo, olhei nos olhos dele, conversei à minha maneira com ele. Enfim, preparamo-nos para montar. Recebi alguns comandos/dicas e saímos para cavalgar. Foram três horas. Nesse tempo, a minha mente fez uma viagem ao passado. Fiz as contas e descobri que, há pelo menos 20 anos, não andava a cavalo e olha que, na adolescência, era o meu animal preferido... Eu nem lembrava disso. Além dessa recordação, durante o dia, me vieram muitas outras, e, em meio a esses pensamentos, me deliciei com o passeio. O vento no rosto, aquele calor gostoso, me senti mais confiante para trotar em uma velocidade maior com o Feitiço (nome do cavalo) e meus parceiros de passeio.

Fizemos parada em duas fazendas para visitarmos alguns parentes dos nossos amigos. Em uma delas, tive "A" oportunidade da vida de conhecer uma senhora de 106 anos, super lúcida, cheia de saúde, que me disse que a vida foi dura com ela, mas o que a ajudava a suportar era o crochê, trabalho ao qual passou a se dedicar por horas todos os dias. Lembro de ter ficado emocionada, ouvindo o seu resumo de vida. Enquanto me refrescava com a água servida, fiquei olhando para ela e tentando imaginar a sua vida centenária e o quanto tinha para nos inspirar. 

Voltamos à fazenda e, naquele dia, tomei banho gelado (não gosto, esquento água e tomo banho de caneca, normalmente kkkk), mas eu estava tão feliz, com tanto calor que aquela água que escorria pelo meu corpo, me dava uma sensação de limpeza, de liberdade e de estar viva em todos os sentidos. Quando fui almoçar, elogiaram o meu modo de cavalgar e riram de mim, pois eu estava distante, olhando para o nada, com cara de cansada, no entanto, feliz.

Dia 5 (quarta-feira) - Escola de Inglês. Recebemos o convite para ir até o chalé que virou uma "escola de inglês" organizada pelas netinhas de 9 e 10 anos. Elas prepararam tudo: cadeira, mesa, quadro, pinturas, materiais escolares, recortes e passaram algumas horas ensinando os filhos dos caseiros a falarem inglês. Ficamos sentados, olhando a aula, verificando o que tinham aprendido e rindo... 

Como era bonito ver aquilo. Como as crianças estavam felizes com o que ensinavam e, consequentemente, aprendiam. Ah, rolou prova final e os dois aprendizes passaram! Foi algo tão genuíno que, ao sair de lá, fiquei encantada com tudo o que vi. Organizamos as coisas, almoçamos e nos despedimos. Ao retornar, vendo aquele entardecer maravilhoso, fiquei lembrando da quantidade de coisa bonita que tinha vivido naqueles últimos dias off e no quanto me/nos fizeram bem.

Há tantas coisas para dizer, que, conforme revejo fotos ou penso, me vêm à mente. Assim, fiz uma listinha com momentos cheios de valor que vivi por lá:


•    Acariciar os cães da fazenda com uma das netinhas; ficarmos encantadas como o céu estava estrelado naquela noite fresca;
•    Acordar cedo e abraçar quem encontrar pela cozinha, dar bom dia e responder que dormi otimamente bem;
•    Durante algumas tardes rolou sessão cinema; todos nós nos sentamos à sala e, cada um à sua maneira, se concentrou e assistiu ao filme;
•    Taças de vinhos e bom papo;
•    Experimentar uma nova fruta e me deliciar com a doçura e a suavidade do ingá;
•    Café com leite e tapioca com o visu das montanhas;
•   Sentir o tecido aconchegante do sofá da varanda (eles já sabem que adoro) enquanto lia um livro; ficava tocando um pé no outro, balançando suavemente enquanto folheava o livro;
•    Assistir a um filme infantil dando carinho no cabelo de uma das netinhas;
•    Olhar de longe o pessoal treinando e correndo com os cavalos;
•    Escutar um sotaque diferente entre o pessoal local e se divertir com cada palavra escutada, parece quase um estilo musical;
•    Rir com a resposta inocente da criança ao dizer que ovo também tem formato redondo em inglês e faz o formato com a mão;
•    Lembrar o filho de uns fazendeiros brincando e dizendo que deveria ser Carnaval todos os dias;
•    Ver um dos cachorros fantasiados, correndo pelo terreno;
•    Degustar uma tartelete feita pelas netinhas, apos ter comentado que não tinha experimentado ainda - elas fizeram questão de fazer para eu poder sentir o gosto daquele doce;
•    O abraço da avó ao me despedir e dizer: abraça de novo que é bom (sinto que caiu um cisco no meu olho rsrs, chorei quieta né?!);
•    Com a seca, alguns animais tornaram-se mais fáceis de avistar, a exemplo do jacaré. Com isso, ficar observando o açude para ver se conseguia vê-lo virou atração local;
•    Escutar as histórias de cada um e ficar sem entender se o que falavam era verdade ou invenção, mas quem se importava com isso se eram sempre contadas com muita alegria?
•    Dar tchau e fazer planos de voltar outras vezes...

Por fim, escrever este post, com o celular na mao para olhar as fotos e me certificar de que consegui registrar momentos tão lindos. Por tudo isso, posso dizer que valeu muito à pena: tive novas experiências cheias de conexões verdadeiras e momentos que ficarão guardados para esta e outras vidas na memória. Tudo isso só foi possível por ter ficado off do digital e on no real.

 

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3 Comentários
  • imagem usuário ou primeira letra

    Ler essa matéria fez-me relembrar um tempo passado onde, depois de uma semana cheia na faculdade, eu e Rodrigo íamos à Chã da Bica e, ao chegar a noite estrelada, ficávamos na varanda do antigo casarão (naquela época ainda não existia a esplendorosa sede da fazenda) ao sabor de uma serenata liderada por Matias no violão, eu no ganzar e Rodrigo no batuque (o grupo mais desafinado do planeta).
    Passa o tempo e a essência permanece, pessoas do bem e felizes com suas realidades, e o que é melhor, compartilhando AMOR.

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    Reinaldo que comentário lindo, ri muito. Ahahah eles podem ser os mais desafinados mas pode ter certeza que faz a plateia chorar de rir. Lá é um ambiente mágico, porque realmente as pessoas são do bem e cheia de amor.

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    Que linda descrição desse lugar maravilhoso, que inspira e transmite amor, muito amor!!! Sou muito abençoada em poder desfrutar do convívio dessa família amada, a qual respeito e sinto tanto orgulho!! Belíssima é merecida homenagem, Fabiana!!!

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