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Nada consegue mudar o que é para ficar

Nada consegue mudar o que é para ficar

Nada consegue mudar o que é para ficar

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Decidi escrever quando faltava pouco mais de três horas para o avião que me trazia da Holanda pousar no aeroporto Santa Maria, aqui em Aracaju. Estava participando do evento Velo-City 2017, conferência sobre a ciclomobilidade que aconteceu na Holanda, de 13 a 16 de junho – experiência fantástica, diga-se de passagem. Tentei escrever pouco para não esgotar o assunto e o texto ficar grande, apesar de ter muito a dizer sobre ele. 

Olha eu falando sobre "Planejamento baseado em estudos: criando uma rede de ciclovias em países iniciantes", no Velo-City

Lembro-me da última semana de aula do 3⁰ ano do ensino médio. Eu tinha 17 anos. Um amigo havia levado o violão para a escola e tocou algumas músicas, dentre elas aquela que começa assim "Mudaram as Estações..." (Por Enquanto, de Renato Russo). 

Nossa, naquele momento minha garganta deu um nó (do mesmo jeito que acabou de dar agora indecision). Eu fiquei me perguntando o que eu faria sem a companhia dos meus amigos de sempre, em como o mundo seria algo totalmente novo e sem previsão. Eu estava muito assustada e já com tantas saudades...

Mal sabia eu que ali não era o fim de coisa alguma, mas o começo de uma vida maravilhosa, riquíssima em diversos conhecimentos e aprendizados, novos amigos, manutenção de algumas amizades, rompimento de outras e até a construção dela com antigos desafetos.

"Se lembra quando a gente/chegou um dia a acreditar/Que tudo era pra sempre sem saber/que o pra sempre/sempre acaba". Mas logo depois vem: "... mas nada vai conseguir mudar o que ficou". Aqui precisei parar, respirar fundo, conter as lágrimas para continuar escrevendo. crying

E, nossa, quanta coisa tem ficado na minha vida! Quantos momentos e pessoas guardarei para sempre na mente e no coração... Contudo, não há motivo para ficar triste. Muito pelo contrário, há pouco tempo aprendi que não existe adeus. Nunca! Como aprendi isso? Bem, com duas histórias.

Na Nova Zelândia, quando fiz intercâmbio, em 2011, fiz um amigo brasileiro, paulista, que gosta muito de viajar de moto. Ele sempre ia para o Nordeste, mas nunca chegava até Aracaju.

Um belo dia, precisei de dois dólares em dinheiro trocado e não tinha. Ele me emprestou. No dia seguinte, fui devolver. Ele não aceitou. "Guarda os dois dólares para quando eu passar por Aracaju. Assim teremos um motivo para nos reencontramos", disse ele em justificativa.

Vou passar rapidinho para a segunda história. Essa você pode conferir aqui. Fala sobre um senhor brasileiro que recebe um pinguim, todos os anos, em sua casa, no mês de junho. Essas visitas passaram a acontecer depois do homem ter salvado e cuidado do animal. Desde então, o pinguim fica um tempo lá com ele e depois retorna à sua vida marinha. Todos os anos ele vai e volta.

Esse relacionamento entre eles me fez refletir sobre diversos aspectos, mas vou destacar dois:

1. Animais são realmente seres irracionais? Nós somos realmente os únicos racionais? (Parei por aqui, pois essa discussão é bem ampla, rs).

2. O pinguim tem o mundo inteiro para percorrer. Ele passa por todo tipo de perigo. Tem que caçar, sobreviver aos predadores, ao mar, aos ventos, à correnteza, à caça humana, ao lixo que depositamos no mar, às presas que possam estar contaminadas – mais um nó na garganta e algumas lágrimas...

Sei que ele não percorre o mundo inteiro, que tem a sua rota, mas, ainda assim, pense no que ele passa para sempre voltar a fim de passar um tempo com o homem que salvou a sua vida. Às vezes, chega mais cedo, outras mais tarde, mas sempre está presente no aniversário daquele senhor. Não procurei saber a atual situação de ambos, pois fico com o coração partido só de imaginar em como será o momento do "adeus" entre eles.

Voltando para o "não existe adeus", de fato, não existe. Um dia, todo mundo vai embora. Mas, por vezes, o reencontro é possível. Porém, quando se vão para sempre – seja por nunca mais terem a oportunidade de se verem por terem tomados caminhos que não se cruzam ou pela morte –, podemos manter aquela pessoa querida na mente e no coração. O sorriso que abrimos quando recordamos momentos felizes é a reação que todos deveriam ter. laugh

E por falar em rodar o mundo, em 2013, eu fiz uma viagem à Argentina. Estava em uma feirinha muito frequentada pelos locais e pouco pelos turistas. Como não tenho paciência para o consumismo, fiquei esperando na porta de uma loja mega lotada enquanto três amigas se divertiam lá dentro. Estava observando a calçada, que se assemelhava a um formigueiro humano, quando os meus olhos encontraram os de outra pessoa em meio àquela confusão.

Paramos por cinco segundos. Nenhum dos dois acreditava no que tinha acabado de acontecer. Demorou um pouco para cruzarmos aquela multidão, mas o abraço foi mais do tipo "não acredito que você está aqui" do que "que bom te ver!". Então, tivemos que dar dois abraços. Cada um com um significado. Pena que eu não tinha os dois dólares ali.

Por essas e outras, o tempo e as experiências me ensinaram a ter paciência e me deram a certeza de que, uma hora ou outra, a situação chegará onde almejo ou terei a oportunidade de ver determinada pessoa novamente. Não preciso ansiar por isso. Cedo ou tarde virá. Então, é viver o aqui e o agora, como se fosse mesmo para sempre. 

Assim, volto a Aracaju com um carinho enorme por todos os novos laços que fiz, por finalmente ter conhecido uma amiga virtual (após seis anos) e ter sido acolhida por ela em sua casa holandesa. Volto com sensação de dever cumprido e mais um lance de degraus percorrido. heart

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