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O poder do não

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O poder do não

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Após alguns dias de descanso, retomo a rotina, ao exercício de escrever, de expor os meus pensamentos. O tema desse texto surgiu em meados do mês de dezembro, no momento em que completei os meus 35 anos. Nessa época, fiz uma tremenda reflexão sobre os inúmeros NÃOs com os quais a vida me "presenteou".

Completar tal idade me trouxe bons questionamentos. Percebi que vivenciei muitas coisas e tenho a sensação de que estou na metade da minha vida, considerando que eu vá até a casa dos setentão. Vamos a alguns momentos cruciais…

NÃO POSSO PAGAR A UNIVERSIDADE 
Aos 14 anos, eu e a minha família nos mudamos para Sergipe (morávamos em São Paulo). Conclui o segundo grau aqui. Após escolher o curso para o qual prestaria vestibular, à época estava prestes a completar 16 anos, decidi pelo curso de Arte, design e multimídia, pois, desde pequenina, queria fazer algo relacionado às artes, desenho... Tive a oportunidade de iniciar o curso no ano de 1999. Àquela época, mal tinha acesso a computador. Eram tempos bem diferentes de tudo o que vivemos hoje. Lembro-me quando, pela primeira vez, sentei à frente dos computadores do laboratório de informática da universidade, um mundo novo se abria. 

Pois bem, cursei seis meses (um período) e recebi um tremendo NÃO do meu pai. "Filha estou passando por problemas financeiros e não poderei custear o seu ensino superior. Você terá que trancar a matrícula". Lembro que fiquei triste, mas aceitei, afinal, que opção eu tinha?!... Decidi sair em busca do meu primeiro emprego. Consegui um na área administrativa de uma loja de materiais de construção, no Município de Itabaiana, onde morava. O salário, porém, não dava para pagar a parcela da faculdade, que era R$ 280,00 (jamais esqueço). O meu salário era tipo a metade disso, acho. Para a minha sorte, consegui um emprego, em 2001, no Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Município de Aracaju - Setransp. O salário dava para pagar o meu curso e ainda sobrava R$ 100,00. Somado a isso, tinham outros benefícios, como o ticket alimentação. Ou seja, poderia me considerar ryyyyyca!!!! 

De 2001 a 2014 - trabalhei no Setransp. Iniciei como caixa e saí de lá como coordenadora de Marketing. Hoje, presto serviço para a empresa e empresas do setor de transporte. 

NÃO TENHO GRANA PARA COMPRAR UM COMPUTADOR
Já na universidade, precisava muito ter um computador, porém, como comprar? Resolvi pedir ajuda aos meus pais. Como sabia que eles não estavam com grana, fiz a  proposta deles "pagarem" por um computador usado e eu os pagaria com o meu ticket alimentação, durante nove meses. Assim, conquistei o meu primeiro computador. Ao lembrar de histórias como essa, abro um sorriso largo. Fica claro que, quando queremos algo, nos viramos para conquistar.

NÃO POSSO ESTAGIAR EM OUTRA EMPRESA
Com o passar do tempo, ao crescer na empresa e prosseguindo com o curso de Design Gráfico, eis que surgiu o momento do estágio obrigatório. Conversei na empresa e recebi um "lindo" NÃO. Não poderia ser liberada para estagiar em outro local. Confesso que bateu aquele desespero, sensação que me fez companhia durante alguns dias. Porém, em uma conversa com a coordenadora do curso, pensamos em um plano B (a partir daí comecei a pensar em um alfabeto inteiro de possibilidades para a v-i-d-a).

Como estava começando a cuidar da parte de Comunicação e Marketing (ano de 2004) da empresa, tive a ideia de propor um novo layout para o jornal do setor (transporte público). Assim, durante o meu ‘estágio’, avaliei toda a história de impressos que o setor tinha e fiz uma nova proposta. A empresa gostou muito do resultado. Depois disso, passei a coordenar a área, a layoutar os impressos, como jornais e revistas, e a fazer freelas para as empresas filiadas ao Setransp.

Durante muitos períodos da universidade, trabalhava e estudava na capital Aracaju e somente dormia no interior, na cidade de Itabaiana. Em períodos de prova, às vezes dormia somente 2h ou ficava de virote.

NÃO, OBRIGADA
Sabe quando a proposta é boa demais para ser verdade? Já estava formada quando recebi a proposta de me tornar gerente de um grande grupo, com a oportunidade de propor o meu valor. Era o ano de 2010. Apesar de bastante tentadora, meu íntimo sentenciou: a hora não é essa…

NÃO É DESTA VEZ
Houve um período da minha vida no qual achava que era chegado o momento de tentar trabalhar em outra área, vivenciar outras coisas, me desafiar. Tive uma oportunidade e aceitei, mas, na minha vida acontecem algumas coisas muito "desenhadinhas". Na mesma época descobri que passava por problemas de saúde e que precisaria de um tempo em repouso, assim como me submeter a uma nova cirurgia. Até o conselho do médico foi o seguinte: "não mude nada durante este período, não sabemos o que virá". Para quem não sabe, tive suspeita de câncer duas vezes, um na mama e o outro na tireoide, mas "gracias" foi alarme falso. Após retirar os nódulos, o resultado da biópsia deu negativo. Então, entendi que era mais um não que recebia da vida e tive a paciência de cuidar de mim.

NÃO TEREMOS MAIS O SETOR, MAS...
Estava coordenadora de Marketing em outra empresa, a Aracajucard, quando começaram a falar em crise econômica, era 2015. Passei a vivenciar poucos investimentos na área e muitas pessoas sendo demitidas. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu seria a próxima. Quando recebi a tal notícia, o sentimento era simplesmente de gratidão. Passava um filme na minha cabeça do quanto havia crescido profissionalmente e pessoalmente até ali. Tinha tido a oportunidade de voltar à universidade e de ser desafiada, constantemente. É lógico que não cabia qualquer tipo de raiva por ter sido demitida. Além disso, tive a oportunidade de tornar-me prestadora de serviço para a mesma empresa. Ou seja, mais um motivo para não nutrir sentimentos ruins por algo que, simplesmente, tinha acabado.

Mencionei aqui cinco momentos de NÃOs que recebi da vida, porém, em nenhum deles, lembro-me de ter sentido revolta, de ter desejado uma vida fácil ou de ter tido pena de mim. Percebi que, a cada época, eu lidava com os contratempos, à minha maneira (quieta ou doente muitas vezes, rs), mas sempre com pensamento positivo, de que tudo daria certo ao final. 

Sabe aquele NÃO que te prepara? Que te torna forte? Com metas e disposição para se virar com o que estiver ao seu alcance? Para mim, esses são os poderes que o NÃO teve e tem na minha vida. Um NÃO me dá vontade de muitos SIM's e de prosseguir. 

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