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Tem mulher na obra!!

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Tem mulher na obra!!

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Aos 27 anos, apenas quatro de formada em Engenharia Civil, Mariana Rezende Dória, já deu ordem em muito marmanjo machista. Apesar da aparência delicada, ela soube impor respeito e ganhar a confiança das equipes que liderou em obras da construtora Cosil e RGM. Atualmente se dedicando ao doutorado, lecionou no Instituto Federal de Sergipe e na Universidade Tiradentes. Em sala, além dos conteúdos tradicionais da ementa, dedicou-se a encorajar as suas alunas a estagiarem em obras. “Além do crescimento profissional, é uma forma de fazer com que a sociedade veja a atuação da mulher na construção civil de forma natural”, acredita.

E esse mercado já mudou bastante. Hoje, apesar do preconceito que ainda ronda os locais que, tradicionalmente, eram dominados pela figura masculina, o cenário já é outro. “Acho difícil uma empresa de construção civil rejeitar um currículo pelo fato de ser mulher. Em seleções de emprego, o que pesa fortemente é a experiência, qualificação e boas recomendações do profissional”, diz ela.

Nesta entrevista concedida ao Tudo para Mulher, ela fala ainda sobre a realidade após a conclusão do curso, dá dicas para as mulheres que estão pensando em seguir a profissão e da gratificação de se ver colaborando, literalmente, para construir sonhos. “Sempre me lembro da minha primeira obra como estagiária. Teve uma senhora que chorou ao fazer a vistoria do seu apartamento e me contou que havia abdicado de muitas coisas para ter aquele imóvel. Foi naquele momento que percebi o quão grande é o nosso trabalho, que não só construímos edificações, como os sonhos de milhares de pessoas”, conta Mariana. Quer saber mais sobre o universo da mulher na engenharia? Segue lendo, que o bate-papo foi dos bons!  


Tudo para Mulher - Como você se sente atuando em um meio ainda tão dominado pelos homens?
Mariana Rezende -
Mesmo sendo um cargo tradicionalmente masculino, a cada dia, nós mulheres, estamos nos destacando, principalmente mostrando uma nova forma de conduzir a Engenharia. Por natureza, as mulheres, em sua maioria, são mais detalhistas e acabam sendo tão eficientes quanto os homens. Eu me sinto bastante confortável em exercer a minha profissão. Acho que quando nos dedicamos ao que gostamos, as adversidades se tornam detalhes perto do quão gratificante é o fruto do nosso trabalho.

Tudo para Mulher - Você trabalhou como engenheira civil em canteiros de obras. Sentiu algum tipo de preconceito?
Mariana Rezende -
Sim. Eu me deparei algumas vezes com situações preconceituosas e machistas, não só pelo fato de ser mulher como também por começar a exercer a profissão muito nova. Entretanto, ao mostrar empenho e dedicação, consegui contornar as situações. A gente sente mais preconceito por parte de alguns colaboradores mais velhos. Acho que muitas engenheiras já ouviram a frase: "Eu construo há mais de 10 anos e vem uma menina me dizer o que fazer". Nesses momentos, temos que ter pulso firme e expressar, de forma clara e respeitosa, que temos qualificação técnica suficiente para solicitar o que foi pedido.

Tudo para Mulher - Como você impõe o devido respeito pelo seu trabalho?
Mariana Rezende -
A melhor forma de impor respeito é dialogando com os colaboradores, respeitá-los também, tentar criar um vínculo de equipe.  A pior forma é tentar impor, exercer aquela velha imagem de "engenheiro tocador de obra". Engenharia é trabalho em equipe, temos que valorizar o trabalho de cada membro dela, entretanto é importante deixar claro que a palavra final é do engenheiro, mesmo porque respondemos, não só tecnicamente. Qualquer problema que ocorrer o engenheiro é responsabilizado, até mesmo criminalmente.

Tudo para Mulher - Você se sente especial por estar ajudando a derrubar barreiras?
Mariana Rezende -
Sim, eu fico muito feliz em ver cada vez mais a participação das mulheres na construção civil, não só como engenheiras, mas como técnicas, encarregadas e até mesmo serventes. Encorajo sempre as minhas alunas, mesmo as que querem seguir carreira como projetistas, a estagiarem um tempo em obra. Além do crescimento profissional, é uma forma de fazer com que a sociedade veja a atuação da mulher na construção civil de forma natural.

Tudo para Mulher - O que você diria para outras mulheres que  pensam entrar na profissão?
Mariana Rezende -
Para ser engenheira civil, a pessoa tem que estar disposta a resolver desafios diferentes diariamente. É uma profissão que exige muita força, empenho, desgaste... Você tem que ser um líder, responsabilizar-se, não só pela execução tecnicamente correta como também pelo bem estar no ambiente de trabalho dos seus colaboradores. Mesmo exigindo tanto da gente, não há gratificação maior do que ver que o seu trabalho se transformou no lar de outras pessoas, em estradas, pontes, obras hidráulicas, que são essenciais à população.
 
Tudo para Mulher - Em algum momento pensou em recuar? 
Mariana Rezende -
Às vezes, na faculdade, quando não tinha conhecimento de como era o dia a dia do profissional, eu pensei em desistir, mas conversei com alguns professores e vi que a engenharia vai muito além do que imaginamos no início do curso. Inclusive, foi ao deparar com a disciplina Tecnologias da Construção que percebi a minha paixão por grandes obras. Decidi me dedicar também à área acadêmica.

Tudo para Mulher - Como escolheu a profissão?
Mariana Rezende -
Na verdade, fazemos a escolha da profissão em uma idade muito precoce. Entrei na faculdade com 17 anos, optei pela engenharia Civil por gostar de cálculo. Não tinha muita noção do que era a profissão.

Tudo para Mulher - Você se veste como para o trabalho? Tem algo que evita usar?
Mariana Rezende -
Como qualquer profissão, temos que evitar decotes, roupas justas... E, em obra, temos que nos preocupar, principalmente, com o conforto e com a proteção. Quem pensa que o gestor de obras fica trancado em uma sala está muito enganado. Tem que subir escadas, aguentar o sol quente, às vezes chuva. E não esquecer dos EPIs (equipamentos de proteção individual) básicos: bota e capacete.

Tudo para Mulher - Já recusou algum trabalho por medo?
Mariana Rezende -
Medo não, mas já indiquei outro profissional por a demanda não ser da minha área de especialização. Mesmo tendo um conhecimento geral de todas as áreas da engenharia civil, todos nós precisamos nos especializar em alguma área para termos um conhecimento mais profundo. Engana-se o estudante de engenharia que acha que sairá da faculdade com segurança o bastante para projetar uma ponte, por exemplo. Nós recebemos conhecimentos básicos para que possamos nos aprofundar através de cursos de pós-graduação, MBA, dentre outros. É uma profissão que exige qualificação contínua.

Tudo para Mulher - Onde pretende chegar na profissão?
Mariana Rezende -
Hoje estou fazendo doutorado em Engenharia de Materiais pela Universidade Federal de Sergipe, quero me dedicar à carreira acadêmica. Tenho paixão por lecionar, pela engenharia e pela pesquisa em tecnologias na área. Espero chegar ao cargo de professor titular de uma instituição federal para que possa contribuir para o crescimento científico dessa área.

Tudo para Mulher- Como está o mercado de trabalho para as mulheres na sua área?
Mariana Rezende -
O mercado, no geral, não está tão aquecido como há dois anos. Sinceramente, acho difícil uma empresa de construção civil rejeitar um currículo pelo fato de ser mulher. Em seleções de emprego, o que pesa fortemente é a experiência, qualificação e boas recomendações do profissional.

Tudo para Mulher - Qual foi o momento mais difícil? E o mais gratificante?
Mariana Rezende - 
O mais difícil foi optar entre o meu mestrado e o emprego como engenheira civil. Tive vários momentos gratificantes, tanto em obra, como em sala de aula, mas sempre me lembro da minha primeira obra como estagiária. Teve uma senhora que chorou ao fazer a vistoria do seu apartamento e me contou que havia abdicado de muitas coisas para ter aquele imóvel. Foi naquele momento que percebi o quão grande é o nosso trabalho, que não só construímos edificações, como também os sonhos de milhares de pessoas.


Fotos: cobec.com.br, cimentoitambe.com.br

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